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Quissamã memória viva

Helianna Barcellos é nascida e criada em Quissamã. Sua vida foi ativa, múltipla. Inacabada. Formou sua família em Niterói, onde viveu por 40 anos junto ao seu amado marido, Jesus Edésio. No entanto, o desejo de voltar à sua terra natal nunca abandonou seus sonhos. As lembranças da vida que levava no interior eram como uma força motora que a guiava. Entre criar os quatro filhos, o trabalho como costureira e professora de pinturas em porcelanas, o desejo de perpetuar de alguma forma a memória de Quissamã só foi crescendo. Mas como resgatar o passado? A resposta começou a tomar forma em 1975, com uma exposição em comemoração ao centenário da Companhia Engenho Central de Quissamã. Leninha reuniu fotografias, recortes de jornais e retratou, em porcelanas, cenas e paisagens da cidade. Junto a outros interessados pela história local, organizou encontros e iniciou uma coleção de objetos antigos. Até que no dia 04 de

dezembro de 1994, ao lado de Jesus, colocou em prática o sonho que alimentou por tanto tempo e realizou a primeira entrevista do projeto “Quissamã Memória Viva”. Ao longo de três décadas, mais de 80 pessoas foram ouvidas, gerando um acervo de quase 6 mil minutos de relatos orais. Acervo que foi crescendo e ganhando mapas sociais e geográficos, mais quadros, objetos antigos e de demolição, documentos, jornais, bonecas de pano, crônicas, livros, fotografias e muito mais. Tudo reunido no Espaço Cultural José Carlos Barcellos, a casa-museu idealizada por ela como ponto de encontro e preservação da história quissamaense. Em 2022, Leninha fez sua passagem, deixando a certeza de uma vida bem vivida — e a esperança de que aqueles que ficam sigam mantendo viva a memória popular de Quissamã. A exposição “QUISSAMÃ MEMÓRIA VIVA - 30 ANOS” homenageia a vida da sua fundadora e todas as suas criações.

A exposição

Ao entrar no Espaço Cultural Espaço José Carlos Barcellos, o visitante é convidado a assinar o livro de presença e a ler o texto de introdução da exposição. Os itens expostos são uma combinação entre peças da exposição permanente e peças inéditas, a fim de apresentar ao público a produção proflífera de Leninha que evidenciam as facetas criativas da fundadora do projeto Quissamã Memória Viva, em comemoração aos 30 anos do projeto. Leninha era polivalente e envolvida com a vida que a rodeava. Seu longo trabalho de preservação da memória popular de Quissamã a tornou uma memorialista contruindo um acervo multilinguagem robusto sobre a história da cidade contada do ponto de vista dos trabalhadores da Usina Engenho Central. Com um olhar atento ao meio ambiente, contribuiu para oficialização da Restinga de Jurubatiba como um Parque Nacional de Preservação desse bioma, além de atuar no Movimento “Cidadania pelas Águas” vinculado ao CREA-RJ. Por muitos anos, ganhou seu sustento costurando vestidos de noivas, roupas de festas e cotidiano, tigindo lenços e tecidos para uso próprio e terceiros. A casa que viveu e criou sua família em Niterói foi projetada por ela, assim como o Espaço Cultural José Carlos Barcellos, pensado, desde o princípio, para abrigar o volumoso acervo do projeto Quissamã Memória Viva. Boa parte dos itens encontrados nessa Casa-Museu são pinturas feitas sobre porcelana feitos por ela. A arte dos pincéis foi adiquiriu depois de ter seus filhos e aperfeiçoada a ponto de ministrar aulas no Colégio São Vicente de Paula em Niteroi durante anos. Uma mulher potente, criativa e corajosa. Acreditava na importância de se envolver com as questões sociais do seu entorno, batalhar pelos seu direito à vós e opinião sobre como a sociedade é moldada. Muitas vezes enfrentando cenários de maioria masculina para contribuir com suas idéias e o que julgava ser o correto a ser feito. Integrou quase todos os conselhos municipais de Quissamã e lutou pela participação da sociedade civil na construção do Plano Diretor da cidade, inclusive acolhendo as reuniões no ECJCB.

quatro molduras com fotos de Leninha ilustram algumas das suas áreas de atuação: costura, memória, pintura, meio ambiente e cidadania.

Ambientalista e cidadã
Costureira
Memorialista
Pintora

Os quadros da exposição permanente foram rebaixados para ficarem ao alcance da vista de crianças e cadeirantes. A cada quadro tambem foi adicionado uma áudiodescrição acessível através de um QR Code.

Leninha pintava sobre porcelana usando pincéis e bico de pena. Usava louças, azulejos e placas para retratar paisagens históricas quissamaenses, natureza e mapas. Na exposição, os visitantes podem ver o seu kit de ferrramentas, tintas, peças inacabadas para ver como era o processo de pintura, assim como algumas das primeiras obras executadas PRATOS PINTADOS COM ALGUMAS FERRAMENTES DE ALGUNS ORIXÁS SÃO EXPOSTOS PELA PRIMEIRA VEZ

A costura ocupou boa parte da vida de leninha, sendo uma fonte de renda durante muitos anos. a exposição mostra um exemplo de vestido de noiva que fez para sua filha mais velha, assim como uma mostra de tecido tingido. Também é possível ver fotos alguns dos outros vestidos de noiva confecionados por ela. Seu amor pela costura a levou a criar um grupo de costureiras da cidade para produzir bonecas de pano, chamadas de bruxinhas. Parte desse processo era trazer personalidades quissamaenses para serem representadas através das bonecas como forma de preservar a memória dessas pessoas. Uma minibiografia era impressa e etiquetada à boneca para contar um pouco mais da história das personalidades escolhidas.

Durante o processo de entrevistas com os mais velhos sobre a memória da Usina, Leninha começou a escrever crônicas que eram publicadas no jornal local. Em 2011, selecionou algumas dessas crônicas para publicar o livro “Mascate de Sonhos - Memórias de uma quissamaense”. Durante a pandemia, junto com suas netas, começou a escrever seu segundo livro contendo a transcrição dos relatos e uma introdução sobre cada pessoa escolhida. “Vozes de Quissamã - Memórias da gente do interior” foi publicado em 2022. Ambos os livros estão expostos e o segundo disponível para a venda

Maquete do ECJCB feita pela aluna de arquitetura Marcela Batista está exposto na varanda. Próximo à maquete, os prêmios recebidos por Leninha estão organizados em uma vitrine.

O Espaço Cultural José Carlos Barcellos foi projetado por Leninha e inaugurada em 1997, ao lado de Jesus, seu marido. A arquitetura é inspirada nas casas do período colonial, os pisos foram desenhados como tapetes decorativos, as janelas alocadas de forma que a luz natural ilumine a casa pela maior parte do dia e o ar circule para manter a casa fresca sem a necessidade de ventiladores e ar condicionado. Durante a construção, apenas uma árvore foi derrubada e o restante da vegetação foi valorizada para que se preservasse uma parte da restinga no quintal. Leninha colocou placas nas plantas para identificar cada espécie e nomeou essa área como Sítio Restinga Viva.

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